"E formou o
Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida;
e o homem foi feito alma vivente." (Gênesis 2:7).
O Pó da terra, matéria criada, com
toda sua fragilidade e dependência de sua origem, Deus. Quando do sopro,
transmissibilidade da vida sobre o pó em formação, alma vivente do ex nihilo,
existência agora com propósito, integrado com o superior plano, Deus, em sua
natureza transmitida, parte que brota do Senhor, e não da obra criada, pó.
João Calvino, em sua obra As
Institutas da Religião Cristã (Livro I, Capítulo 15), ao tratar da criação
do homem:
"A alma é uma essência incorpórea, contudo é uma verdadeira
criatura; não é uma partícula da essência divina, mas uma centelha de vida
criada por Deus a partir do nada, alojada no vaso de barro que é o corpo."
Se o espírito
torna a Deus que o deu (Eclesiastes 12:7), concluímos que o corpo, ente
passageiro originado do pó da terra, atua como o vaso que temporariamente
contém a respiração e a ordenação de Divina. Soprar é muito mais que exalar
sobre; é conferir propósito, força e existência racional.
Neste ato
criativo, o sopro passa a ser a dignidade estrutural dada ao homem. Teimamos em
dar valor excessivo ao visível e tangível, esquecendo-nos de que a nossa
subsistência depende inteiramente da sustentação do Criador. Como destaca Herman Bavinck em sua Dogmática Reformada:
"O homem não é apenas um agregado de matéria e espírito; ele
é uma unidade psicossomática criada para a comunhão com Deus. A morte não
aniquila o homem, mas separa o receptáculo terreno da sua respiração
espiritual, devolvendo cada parte à sua devida origem até o dia da redenção
física."
É fascinante
notar a tipologia bíblica: o primeiro Adão, formado do pó da terra, cedeu ao
pecado e introduziu a morte. Mas, como argumentou o teólogo puritano John Owen ao discorrer sobre a
encarnação e a obra de Cristo:
"O Filho de Deus tomou sobre si a verdadeira carne humana,
gerada da estirpe de Davi, sujeitando-se às debilidades do pó para que, como o
segundo Adão, pudesse resgatar tanto a alma quanto o corpo da corrupção."
A
ressurreição de Cristo desmonta o triunfo absoluto da matéria morta. Ela exalta
a soberania da criação sobre a sepultura. Quando Jesus ressuscita em carne
glorificada, o próprio pó ganha significado eterno; o corpo físico não é
descartado gnósticamente, mas redimido para a comunhão eterna com o Criador -
pó e fôlego unidos na pessoa do homem glorificado.
Por que Deus
insiste em resgatar e redimir aquilo que foi maculado pelo pecado? Porque a Sua
graça é soberana e irrecusável em seus desígnios de adoção. Deus não despreza
as obras de suas mãos. O valor da matéria reside na dignidade que o Criador lhe
conferiu, e a alma encontra seu repouso somente quando reconciliada por meio de
Cristo. Sem Deus, o ser humano é espiritualmente morto.
Agostinho de
Hipona (As
Confissões, Livro I, Capítulo 1, Parágrafo 1)disse:
"Fizeste-nos para ti, e o nosso coração estará inquieto
enquanto não descansar em ti."
Diante da
transitoriedade da vida e da vã ilusão de acumular tesouros passageiros, as
Escrituras nos lembram da soberania final de Deus sobre a história:
"Pela mesma Palavra, os céus e a terra que
agora existem estão reservados para o fogo, guardados para o Dia do juízo e
para a destruição dos ímpios" (2 Pedro 3:7).
"O céu e a terra passarão, mas as minhas
palavras não hão de passar" (Mateus 24:35).
"Todavia, de acordo com a sua promessa,
esperamos novos céus e nova terra, onde habita a justiça"
(2 Pedro 3:13).
A ampulheta
do tempo se esvai, conduzindo o corpo de volta ao seu elemento natural, a
terra. Mas a esperança da fé fundamenta-se no criacionismo bíblico, na
soberania absoluta de Deus e na eficácia da cruz de Cristo.
A eternidade não é um conceito
abstrato, mas a concretização da promessa de que habitaremos para sempre na
presença d'Aquele que é o Autor e o Consumador da nossa fé.